Carneus
| Carneus | |
|---|---|
| Deus do gado. | |
| Outro(s) nome(s) | Carneo |
| Região | Lusitânia |
| Religiões | Pagã (Politeísmo) |
Carneo (em latim: Carneus; documentado epigraficamente com o epíteto composto Carneus Calanticensis) é uma importante divindade indígena pertencente ao panteão lusitano e hispano-celta pré-romano[1][2]. Cultuado nas planícies do sul do Tejo por populações de matriz céltica, a sua figura é associada à criação de gado, à proteção dos rebanhos, à fertilidade dos campos e à atividade venatória (caça)[3][4].
O Templo Romano de Santana do Campo
A comprovação arqueológica e epigráfica do culto a Carneo provém de um achado monumental de extrema raridade na antiga Lusitânia: o templo romano de Santana do Campo, situado na paróquia homónima, no concelho de Arraiolos (distrito de Évora), em Portugal[5].
Neste sítio arqueológico, a atual estrutura da igreja paroquial foi erguida diretamente sobre as fundações de um antigo templo romano-lusitano podomórfico[5]. Foram descobertas e integradas nas paredes do próprio edifício três inscrições votivas (indexadas no 'Inscriptions Romaines do Conventus Pacensis' sob os números IRCP 410, 411 e 412) que identificam formalmente Carneo como a entidade central cujo culto gerou a importância daquela localidade há dois mil anos[5][2].
O Epíteto Calanticensi e a Comunidade
As epígrafes revelam o nome da divindade acompanhado por uma auto-nomeação coletiva dos fiéis:[5][6]
CARNEO CALANTICENSI
Este epíteto liga diretamente o deus a um ponto de povoamento de dimensões relevantes na região alentejana chamado Calantica ou Calanfica[6]. Os cidadãos desta comunidade (os Calanticenses ou Calanticani) organizavam festividades cíclicas e consagravam as aras em granito para pedir a intervenção do deus sobre a saúde da sua população e o sustento agropecuário local[5].
Análise Linguística e Mitologia Comparada
Deus dos Rebanhos e Agropecuária
Filólogos e historiadores associam o étimo de Carneus à proteção da vida pastoril, integrando o deus no quotidiano económico do Alentejo romano — historicamente caracterizado pelas suas vastas planícies propícias à criação de rebanhos[7]. O dicionário de Daremberg e Saglio aproxima a natureza de Carneo à de um Apolo primitivo em funções de guardião de gado bovino e ovino, responsável por afastar predadores e assegurar a fertilidade das fêmeas reprodutoras[7].
Sincretismo com o Karneios Helénico
A nível de mitologia comparada, o teónimo levanta duas hipóteses entre os especialistas em religiões paleohispânicas:
- A Influência Helenística / Romana: O nome assemelha-se formalmente ao epíteto grego Apolo Karneios (uma importante divindade ctónica e pastoril cultuada em Esparta e na Cirenaica)[7]. A historiografia admite que a elite celta ou os colonos romanos da região de Évora operaram um processo de sincretismo linguístico, adaptando a variante clássica de Karneios para batizar e dar prestígio literário a uma divindade rústica local pré-existente no Alentejo[7].
- A Matriz Venatória Celta: Sob a ótica do reconstrucionismo celta e da tradição pagã lusitana, o radical Carn- evoca paralelismos com deuses corníferos da floresta e da caça (como Cernunnos ou Coronus)[4]. O deus atuaria assim no momento da transição das almas dos homens e animais nos bosques sagrados, protegendo simultaneamente as rotas de transumância e as matas profundas do sul do território[4][6].
Ver também
Referências
- ↑ Teixeira, Monteiro (2014). Cultos e Deuses da Lusitânia Pré-Romana. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
- ↑ a b "This thesis has been submitted in fulfilment of the...: Deity: Carneus (Calenticensis)". Mobt3ath / University of Edinburgh (2005). p. 280-282.
- ↑ ENCARNAÇÃO, José d' (1987). Divindades indígenas da Lusitânia. Conimbriga, n.º 26. p. 21.
- ↑ a b c Associação Tradicional Céltica (2018). Panteão Céltico Lusitano: Atribuições e Teónimos. ATD.
- ↑ a b c d e Carneiro, André (2017). As casas dos deuses: A propósito do templo romano de Santana do Campo. Évora: Universidade de Évora. p. 88-91.
- ↑ a b c Teixeira, J. C. (2010). Considerações sobre a epigrafia votiva do Sul do território português. p. 4.
- ↑ a b c d VASCONCELOS, José Leite de (1905). Religiões da Lusitânia. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 125.
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