Eolasianismo

Triskelião, um dos muitos símbolos do Eolasianismo.

O Eolasianismo, também conhecido como “Movimento da Fé Brasileira”, é um movimento filosófico e espiritual contemporâneo de origem brasileira que propõe um sistema sincrético fundacional baseado na leitura literal da Bíblia e na crença nos princípios e eventos presentes nas mitologias celtas, hiperbóreas e tradições indígenas brasileiras. Rejeitando explicitamente as instituições e doutrinas do cristianismo moderno, tanto católico quanto protestante. O Eolasianismo busca estabelecer uma nova fé nacionalista, espiritual e simbólica, centrada no que denomina o “Eixo Braz-Hiperbóreo”. Embora mantenha a leitura da Bíblia, o movimento não a considera benigna e muito menos, única. O movimento incorpora elementos típicos de religiosidades arcaicas e mitológicas, como o mito de Hy-Brasil, reinterpretado como profecia do destino messiânico do Brasil e a adoração de deuses e entidades brasileiras, principalmente o deus "Tupã" e o deus "Nhanderu". Nesse sentido, o Eolasianismo constitui uma forma de esoterismo nacional, com forte carga simbólica, estética e cultural inspirada em tradições pagãs pré-cristãs e nacionalistas, configurando-se como um exemplo contemporâneo de religiosidade identitária e uma espécie de "nacionalismo folclórico brasileiro".[1][2]

Fundação

O movimento também, segundo o Acentelhato Braz-Hiperbóreo, livro religioso que fundou o Eolasianismo, parece incorporar diversos conceitos espirituais e psicológicos alheios às religiões abraâmicas e pagãs, como por exemplo, práticas semalhantes ao “soltar”, claramente inspirada nos ensinamentos de Lester Levenson e conceitos de “transurfing”, presentes nos livros do ex-cientista soviético Vadim Zeland.[3][4]

Flávio Vinhas, o fundador do movimento, antes, católico tradicional, virou-se para o paganismo em busca de resgatar os valores que, segundo ele, a própria Igreja, com o passar dos anos, posicionou-se contra, alegando que os católicos e quaisquer outras denominações cristãs: “Não fazem ideia do que dizem ser sagrado, muito menos confiam naquele que dizem amar, Deus.” Bem como acusa-os de se aproximarem mais do satanismo, com conceitos como igualdade e liberdade, do que dos princípios de Deus, ou que, se estes forem de fato os princípios de Deus, então, o cristianismo seria nada mais do que uma extensão do próprio satanismo, o que implicaria numa espécie de "malteísmo", dentro da filosofia eolasiana e a única resposta para estas duas vias malignas seria uma terceira.[1]

O movimento, consequentemente, acabou posicionando-se contra as religiões abraâmicas tradicionais, acusando-as de se curvarem ao mal, através da prática do perdão. O livro fundacional, embora de forma alegórica, descreve o Deus Abraâmico como "maligno e sádico", o que também, logicamente, posiciona o movimento contra as religiões abraâmicas.[1]

O movimento, embora recente e moderno, é nada mais do que uma continuação e extremização dos ensinamentos da antiga Sociedade Hy-Braz, uma sociedade secreta fundada em Varginha, Minas Gerais. A Sociedade Hy-Braz foi completamente dissolvida e seus antigos membros foram integrados à Maçonaria em meados dos anos noventa, porém, ainda vive, mesmo que de forma indireta e distorcida no Eolasianismo e na "Suma Ordem Eolasiana", uma ordem iniciática esotérica moderna, muitas vezes referida apenas por "S.O.E.".[5][2]

Doutrina

Segundo a doutrina do movimento, Deus não se mostrou exclusivamente ao povo judaico, mas sim, a diversas outras civilizações de formas diferentes, trazendo-lhes a Verdade, ainda que esta possa ter sido distorcida com o passar dos anos. O Movimento da Fé Brasileira propõe uma cosmovisão que integra as religiões pagãs pré-cristãs europeias e ameríndias à sua doutrina como manifestações diretas do “Eolas”, que seria uma espécie de inspiração divina, entregue a indivíduos ou advinda de seres diretamente enviados por Deus em diferentes épocas e a diferentes civilizações. A palavra “Eolas” é um vocábulo celta antigo e significa “conhecimento” em português. As religiões indígenas brasileiras são tratadas com extremo respeito pelo Eolasianismo. Os membros afirmam que a semelhança entre a simbologia indígena brasileira, com seus sinais teogônicos e cosmológicos e o paganismo indo-europeu, com suas runas, são provas concretas da ligação entre os dois povos e da manifestação do Eolas, ou aos seus precursores ou a eles próprios.[1]

O movimento critica claramente a fé abraâmica em diversos momentos, abraçando o conceito da "moral do senhor". No Acentelhato Braz-Hiperbóreo, as críticas aparentam direcionarem-se não apenas à Igreja Católica, mas ao cristianismo como um todo:[1]

"Mais do que uma incoerência teológica, o cristianismo moderno representa um enfraquecimento espiritual. Ele desarma os povos, ensina-lhes a resignação, converte sábios guerreiros indígenas em pacifistas impotentes e os transforma em servos não de Deus, mas da ordem vigente. A fé cristã se tornou uma aliada da passividade, da espera, da entrega ao sofrimento como virtude. Isso interessa profundamente aos que desejam um povo dócil, controlável e rendido."

É clara também a intenção do movimento de resgatar a fé indígena brasileira e transformá-la numa religião nacional, negando qualquer influência estrangeira, até mesmo as vindas de Jesus Cristo, pois segundo a doutrina, Tupã deveria estar no lugar de Cristo e Nhanderu deveria estar no lugar de Deus:[1]

"Nossa fé não deve estar disposta num “salvador” judeu do Oriente Médio, que se negava a ajudar qualquer um que não fosse daquelas terras, como exemplificado nos versículos 21 em diante no décimo quinto capítulo do livro de Mateus, no qual Jesus se recusa a ajudar uma mulher cananeia por ela não ser judia. Somente depois de muito insistir ela é atendida, como uma mera exceção. Esse trecho, longe de confirmar um messias universal, revela uma lógica tribal, restrita, que não contempla a todos de forma igual, como a Igreja tanto tenta impor."

O Movimento da Fé Brasileira mantém costumes extremamente conservadores, mais conservadores do que os católicos tradicionalistas, defendendo a proteção do núcleo familiar brasileiro, a submissão da mulher e a manutenção de uma sociedade guerreira, na qual todos os homens seriam soldados e protetores, como em tribos indígenas brasileiras, mas ao mesmo tempo, se manifesta em favor da prática da eutanásia e do aborto quando executados pelo Estado, conceitos aos quais os conservadores normalmente colocam-se contra. A religião, logo, opõe-se completamente ao pacifismo e à moral do escravo, presentes no cristianismo, considerando-os uma "fraqueza" que impede o desenvolvimento espiritual e material de qualquer povo.[6] Entre os conceitos defendidos pela doutrina eolasiana, a "Vertente" é um dos que se expõe com mais frequência. A Vertente é descrita como uma espécie de "destino", uma tendência, sempre negativa, que permeia o mundo e as coisas e que se inclui no conceito da Roda Solar, representando os ciclos, também, sempre retratados como negativos. No Acentelhato do Ultramensor, percebe-se claramente a influência do Transurfing e do antigo místico russo George Ivanovich Gurdjieff. A cosmovisão eolasiania é basicamente uma espécie de Transurfing marcial, que pressupõe que a vida nada mais é do que uma "grande guerra", que lutamos dentro de nós, em oposição à visão neutra do Transurfing. A solução que o livro propõe para o giro negativo da Roda e a maldade da Vertente é o Contra-Fogo, uma espécie de ritual de purificação do desejo, no qual o indivíduo seleciona uma vontade específica e põe seu foco nas evidências negativas que circundam o objeto, ainda que sejam fracas. O intuito do processo é diminuir a importância sobre a realização do desejo através da aceitação gradual da sua perda. Durante o processo, sensações surgem pelo corpo do iniciado e este prossegue com uma versão do Método Sedona, também marcializada. É importante ressaltar porém, que, o desejo não é negado, mas sim, aceito por completo. O Contra-Fogo é descrito no livro:[7][4]

"(...) como em um grande navio, já percebido pela Vertente, como todo grande navio é, queima-se uma parte do convés em sacrifício, antes que a Vertente o afunde por completo, em Contra-Fogo, em Amortização, pois esta é natureza da Vertente."[7]

Diferentemente do Transurfing porém, o Eolasianismo não acredita em nenhum tipo de manipulação da realidade ou das realidades atraves de pensamentos positivos induzidos, da forma defendida pelas filosofias New Age, mas aceita a influência humana sobre as coisas, que, ao invés de direcionar para "cocriações", como prega a Lei da Atração e o Método Sedona, direciona para expurgar a própria influência mental humana da realidade, o que é referido como: "Retirar as mãos da Roda." Em contrapartida, o Eolasianismo assume uma posição mental contemplativa quanto ao externo, buscando permitir que a realidade funcione sem qualquer interferência espiritual ou mental humana, retratada como desnecessária ou até prejudicial, mas ainda ensina que deve-se querer e agir fisicamente, apenas, não precisar que aconteça mentalmente, o que se manifesta numa literal guerra interna, do ser humano contra o seu "eu inferior", que subverte os desejos e cria as fantasias mentais, catalisadores da importância que o iniciado deve queimar. Segundo o pensamento eolasiano, é a própria interferência humana mentalizada que impede o desejo de se realizar:

“Qual o valor do serviço quando os escravos e os açoitadores deixam de cumprir seus papeis, mas o trabalho continua se fazendo? Pois como num campo, onde grandes lances de trigo crescem, nascem e são colhidos sem ninguém que o faça, também acontece com nossos pensamentos e sensações, que surgem da vivência e que vão sem nossa interferência. O nosso trabalho, neste sentido, seria na verdade, a ausência de trabalho e a simples observação das engrenagens, como uma grande roda solar, que gira e ilumina, eternamente, mas que se colocamos sobre   ela,   as    nossas    mãos,    ela    deixa de girar.”[8]

Socialismo-Eolasiano

O Socialismo-Eolasiano é uma vertente política que se denomina como parte da "terceira posição" e se baseia em alguns aspectos da filosofia eolasiana, embora se mostre claramente laica em sua composição. O Socialismo-Eolasiano defende pautas como a construção de prédios com moradias populares, inspirados abertamente pela política habitacional da União Soviética, a substituição dos presídios brasileiros por campos de trabalho, também, inspirados nos gulags soviéticos, bem como defende o desenvolvimento industrial nacional, a expansão do território brasileiro, a taxação de riquezas, a reestatização de empresas privatizadas e a nacionalização de patrimônio brasileiro sob controle estrangeiro, como em empresas nacionais com capital na bolsa de valores.

Bandeira utilizada por socialistas-eolasianos. Também encontrada nas cores vermelha, preta e branca.

O Socialismo-Eolasiano não parece carregar consigo as atribuições clássicas do socialismo marxista, pois, embora seja obviamente contrário às praticas capitalistas, também é contrário ao comunismo. Trata-se de uma doutrina política anti-progressista e anti-convervadora, visto que prega um retorno à raízes anteriores àquelas defendidas pela direita brasileira, posicionado-se contra o mundo moderno e todas as doutrinas dele oriundas. O pragmatismo eolasiano se manifesta também no sentido de rejeitar todos estes pontos que fraturam a população brasileira, numa tentativa de reunificação nacional. [5]

Referências

  1. a b c d e f Vinhas, Flávio (2025). Acentelhato Braz-Hiperbóreo. Varginha: Ui-Clap. pp. 223–254 
  2. a b Vinhas, Firmino (1917). A Sociedade Hy-Bráz e o Destino do Brazil. São Paulo: Livraria Francisco Alves. pp. 187–201 
  3. «The Sedona Method | How it Works | Letting Go Technique». www.sedona.com. Consultado em 23 de maio de 2025 
  4. a b Zeland, Vadim (2016). Reality transurfing. Steps I-V. Russia: Createspace Independent Publishing Platform. pp. 409–515. ISBN 1532814658 
  5. a b Vinhas, Flávio (2024). Acentelhato Socialista-Eolasiano. Varginha, MG: Impressão Única. pp. 276–278 
  6. Vinhas, Flávio (2025). Acentelhato Braz-Hiperbóreo. Varginha: Ui-Clap. pp. 114–121 
  7. a b Vinhas Prado Júnior, Flávio (2025). Acentelhato do Ultramensor. Minas Gerais: UiClap. pp. 336–339 
  8. Flávio, Vinhas Prado Júnior (2025). Acentelhato do Ultramensor. Minas Gerais: UiClap. pp. 344–345 

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