Fruit machine

"Fruit machine"[nota 1] foi uma bateria de testes psicológicos desenvolvida no Canadá pelo Dr. Frank Robert Wake,[1] um professor de psicologia da Universidade Carleton[2] na década de 1960. Esperava-se que o programa de pesquisa do Dr. Wake pudesse ajudar o Governo do Canadá a identificar homens gays que trabalhavam no serviço público ou a impedir que pessoas gays obtivessem empregos governamentais. Os indivíduos eram submetidos à visualização de imagens eróticas e "palavras homossexuais", enquanto o dispositivo media a dilatação da pupila do sujeito (teste de resposta pupilar), e uma forma primitiva de detector de mentiras também media a transpiração e a pulsação, em resposta às imagens e palavras eróticas. O aparelho rudimentar foi construído pela Divisão de Identificação da RCMP.

O programa de pesquisa foi empregado no Canadá aproximadamente entre 1960 e 1964 como parte de uma campanha para eliminar todos os homens gays do serviço civil, da Royal Canadian Mounted Police (RCMP) e das Forças Armadas Canadenses (CAF). Milhares de canadenses perderam seus empregos ou renunciaram, e alguns morreram por suicídio. Embora o financiamento para o projeto tenha sido cortado no final da década de 1960, as investigações da RCMP continuaram, e a RCMP coletou arquivos de bem mais de 9 000 pessoas.[3][4]

A máquina utilizava uma cadeira semelhante à usada por dentistas. Possuía uma polia com uma câmera direcionada às pupilas, com uma caixa preta localizada à frente que exibia fotos. As fotos variavam do mundano a fotos sexualmente explícitas de homens e mulheres. Havia sido determinado anteriormente que as pupilas se dilatariam em relação ao nível de interesse na imagem, em uma técnica denominada "teste de resposta pupilar".[5]

As pessoas eram inicialmente levadas a acreditar que o propósito da máquina era avaliar o estresse. Depois que o conhecimento sobre o seu real propósito se espalhou, poucas pessoas se voluntariaram para ele. Em novembro de 2017, o Primeiro-Ministro Justin Trudeau pediu desculpas pelas políticas e discriminação anteriores do Governo do Canadá contra canadenses LGBTQ, incluindo o uso da "fruit machine".[6][7]

Parâmetros de teste falhos

O mecanismo funcional da "fruit machine" era pseudocientífico e seus resultados imprecisos. Primeiro, o teste de resposta pupilar baseava-se em suposições fatalmente falhas: que os estímulos visuais escolhidos produziriam uma reação involuntária específica que poderia ser medida cientificamente com a tecnologia da década de 1960; que homossexuais e heterossexuais responderiam a esses estímulos de forma diferente com frequência e especificidade suficientes para classificá-los; e que existiam apenas dois tipos de sexualidade. Um problema fisiológico do método era que os pesquisadores não levaram em conta os tamanhos variados das pupilas e as diferentes distâncias entre os olhos.[5] Outros problemas existentes eram que as fotos dos olhos dos sujeitos tinham que ser tiradas de um ângulo, pois a câmera bloquearia a visão das fotografias se fosse colocada diretamente na frente. Além disso, a quantidade de luz vinda das fotografias mudava com cada slide, fazendo com que as pupilas dos sujeitos se dilatassem de uma maneira que não tinha relação com o interesse na imagem. Finalmente, a dilatação das pupilas também era extremamente difícil de medir, já que a mudança era frequentemente menor que um milímetro.[5]

A ideia baseou-se em um estudo não relacionado feito por um professor universitário americano, que mediu o tamanho das pupilas dos sujeitos enquanto eles caminhavam pelos corredores de mercearias.[5]

O documentário de 2018 de Sarah Fodey, The Fruit Machine, traçou o perfil dos efeitos do projeto em várias das pessoas afetadas por ele.[2]

Ver também

Notas

  1. O termo é um trocadilho com "fruit machine" significando máquina caça-níqueis, e a palavra fruit, um termo de gíria para homens gays ou afeminados, que se originou nos anos 1900.

==Referências==

  1. «Carleton called on to apologize for gay 'testing'» [Carleton chamada a se desculpar por 'testes' gays]. ottawasun.com (em inglês). Ottawa Sun. 8 de abril de 2026. Consultado em 21 de abril de 2026. Cópia arquivada em 12 de março de 2017 
  2. a b Knegt, Peter (30 de maio de 2018). «The Fruit Machine: Why every Canadian should learn about this country's 'gay purge'» [The Fruit Machine: Por que todo canadense deveria aprender sobre o 'expurgo gay' deste país]. cbc.ca (em inglês). Canadian Broadcasting Corporation. Consultado em 21 de abril de 2026. Cópia arquivada em 30 de maio de 2018 
  3. Levin, Dan (28 de novembro de 2017). «Canada Offers $85 Million to Victims of Its 'Gay Purge,' as Trudeau Apologizes». nytimes.com (em inglês). The New Tork Times. Consultado em 21 de abril de 2026. Cópia arquivada em 30 de novembro de 2017. (pede registo (ajuda)) 
  4. Kinsman, Gary William; Dieter K., Buse; Steedman, Mercedes (2000). «10». Whose National Security?: Canadian State Surveillance and the Creation of Enemies [Segurança Nacional de Quem?: Vigilância Estatal Canadense e a Criação de Inimigos] (em inglês). [S.l.]: Between the Lines. ISBN 9781926662749 
  5. a b c d Sawatsky, John (1980). «10–11». Men in the shadows: The RCMP Security Service [Homens nas sombras: O Serviço de Segurança da RCMP] (em inglês). Toronto: Doubleday. ISBN 9780385146821 
  6. «Apology to LGBTQ2 communities» [Pedido de desculpas às comunidades LGBTQ2]. canada.ca (em inglês). Governo do Canadá. Consultado em 21 de abril de 2026. Cópia arquivada em 21 de abril de 2024 
  7. Murphy, Jessica (24 de junho de 2017). «Canada to apologise for 'LGBT purge' in government» [Canadá pedirá desculpas por 'expurgo LGBT' no governo]. bbc.com (em inglês). BBC. Consultado em 21 de abril de 2026. Cópia arquivada em 25 de junho de 2017 

Ligações externas

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