Casa Ipatiev

Casa Ipatiev (em russo: Дом Ипатьева) foi uma casa mercante em Ecaterimburgo, onde o ex-imperador Nicolau II da Rússia e vários membros de sua família e agregados foram executados durante a revolução bolchevique.[1][2] Ironicamente, seu nome é idêntico com a do Mosteiro Ipatiev em Kostroma, onde os Romanovs chegaram ao trono.[3]
Em 1977, a casa foi demolida.[4][5] Entre 2000 e 2003 foi construída a Igreja do Sangue em homenagem à família imperial.[6]
História

Na década de 1880, Ivan Redikortsev, um funcionário envolvido na indústria de mineração, encomendou a construção de uma casa de dois andares na encosta de uma colina proeminente. O comprimento da fachada era de 31 metros. Em 1898, a mansão passou para Sharaviev, um negociante de ouro de reputação manchada. Dez anos depois, a casa foi adquirida por Nikolai Nikolayevich Ipatiev, um engenheiro militar, que transformou o andar térreo em seu escritório.[7]
Parece ter sido com base em informações fornecidas por Pyotr Voykov que Ipatiev foi convocado ao escritório do Soviete dos Urais no final de abril de 1918 e recebeu ordens de desocupar o que logo seria chamado de "A Casa de Propósito Especial".
Estadia da família imperial e execução no local
A família imperial Romanov mudou-se para lá em 30 de abril de 1918 e passou 78 dias na casa. Este grupo incluía o czar Nicolau Romanov, sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, suas quatro filhas, seu filho e herdeiro Alexei, o Czaréviche (príncipe herdeiro); o médico da corte, Dr. Yevgeny Botkin, a camareira Anna Demidova, o cozinheiro Ivan Kharitonov e o valete Alexei Trupp. Eles ocupavam quatro quartos no andar superior da Casa Ipatiev, enquanto seus guardas ficavam alojados no térreo. A partir do início de julho, o comando desta guarda foi assumido por Yakov Yurovsky, um membro sênior do Soviete dos Urais.
Os prisioneiros tinham permissão para breves exercícios diários em um jardim fechado. No entanto, as janelas de seus quartos foram pintadas e eles eram mantidos isolados do exterior. Uma alta cerca de madeira foi construída ao redor do perímetro externo da casa, fechando-a para a rua.[8]
Por volta da meia-noite de 16 para 17 de julho de 1918, o Comandante Yurovsky entrou no quarto do segundo andar do Dr. Botkin, que estava acordado e escrevendo uma carta. Botkin foi instruído a acordar a família imperial e seus três servos restantes, para que todo o grupo pudesse ser evacuado de Ecaterimburgo. A razão dada foi que as forças do anti-bolchevique Exército Branco, compostas por czaristas e socialistas democráticos moderados na subsequente Guerra Civil Russa de 1918–1921, estavam se aproximando da cidade e que houvera tiroteios nas ruas.
Depois de levarem cerca de meia hora para se vestirem e arrumarem as malas, os Romanov, Botkin e os três servos foram conduzidos por um lance de escadas até o pátio da casa e, de lá, através de uma entrada no térreo para uma pequena sala de semiporão nos fundos do edifício. Cadeiras foram trazidas para o czaréviche Alexei e para a czarina Alexandra a pedido do czar. O restante do grupo permaneceu de pé atrás e ao lado do par sentado.
Depois de um tempo, Yurovsky e um grupo de homens armados entraram no porão pelas portas duplas. Ivan Plotnikov, professor de história na Universidade Estatal dos Urais Maksim Gorky, estabeleceu que os executores foram Yakov Yurovsky, G. P. Nikulin, M. A. Medvedev (Kudrin), Peter Ermakov, Stepan Vaganov, Alexey Georgievich Kabanov, P. S. Medvedev, V. N. Netrebin e Y. M. Tselms. Três letões recusaram-se no último minuto a participar da execução.[9]
Yurovsky falou brevemente algo no sentido de que seus parentes Romanov haviam tentado salvar a família imperial, que essa tentativa falhara e que os sovietes eram agora obrigados a fuzilar todos eles. Ele e seu esquadrão abriram fogo com pistolas contra os prisioneiros.
O número de pessoas aglomeradas em uma área comparativamente pequena levou a um massacre ineficiente e confuso. Levou entre vinte e trinta minutos até que todos fossem mortos.[10]
Demolição

Já em 1923, as fotografias da casa cercada foram disseminadas na imprensa soviética sob o rótulo de "o último palácio do último czar". Em 1927, a casa foi designada como uma filial do Museu da Revolução dos Urais. Tornou-se então uma escola agrícola antes de ganhar nova vida em 1938 como um museu antirreligioso. Durante este período, era costume que aparatchiks do partido chegassem em grandes grupos de excursão, posando diante da parede danificada por balas do porão em que o antigo czar e sua família foram executados. Em 1946, foi assumida pelo Partido Comunista local. Em 1974, foi formalmente listada como um Monumento Histórico-Revolucionário. No entanto, estava se tornando gradualmente um local de peregrinação para aqueles que desejavam honrar a memória da família imperial.
Em 1977, com a aproximação do sexagésimo aniversário da Revolução Russa, o Politburo decidiu agir, declarando que a casa não tinha "significado histórico suficiente" e ordenando sua demolição. A tarefa foi passada para Boris Iéltsin, presidente do partido local, que mandou demolir a casa em setembro de 1977.[11] Ele escreveu mais tarde em suas memórias, publicadas em 1990, que "cedo ou tarde nos envergonharemos deste pedaço de barbárie". No entanto, apesar desta ação, os peregrinos continuaram vindo, muitas vezes em segredo e à noite, deixando símbolos de lembrança no local vazio. Após a dissolução da União Soviética, concluída em 1991, a Igreja do Sangue, uma das maiores da Rússia, foi construída no local.[7]
As cruzes dos Romanov
Em um dos lados da igreja, há uma cruz ortodoxa que marca o local da morte da família Romanov. Mesmo durante a era soviética, havia cruzes colocadas naquela área, que mudaram ao longo do tempo. Diferentes cruzes eram substituídas por novas com o passar dos anos. Uma pequena estrutura de madeira foi eventualmente construída atrás da cruz e ainda permanece perto da igreja hoje.
Outra cruz ergue-se perto da estrutura de madeira, indicando o local onde ocorreram as execuções.
Na literatura e no teatro
A casa serve de cenário para três peças teatrais: Ekaterinburg (David Logan, 2013), sendo o título uma romanização alternativa de Ecaterimburgo, OTMA (Kate Moira Ryan, 2006) e The House of Special Purpose (Heidi Thomas, 2009). Todas as três peças abordam o período de cativeiro passado na Casa Ipatiev pelos Romanov e seus criados.[12]
A casa aparece no episódio "Casa Ipatiev" na 5.ª temporada de The Crown, cobrindo a execução dos Romanov.[13]
Ver também
Referências
- ↑ Massie, Robert K. (1995), The Romanovs: The Final Chapter (em inglês). Random House, p. 6. ISBN 9780394580487
- ↑ Encyclopædia Britannica, Macropaedia 1983, Vol. 13, p. 70
- ↑ Rappaport, Helen (2014). The Romanov Sisters: The Lost Lives of the Daughters of Nicholas and Alexandra (digital) (em inglês). [S.l.]: St. Martin's Publishing Group. p. 196. ISBN 9781250020215
- ↑ Shytov, Vitaly. (2013), Ipatiev House. Documentary and Photographic Annals. 1877-1977 (em russo). Chelyabinsk: Auto-Count Publishing House. ISBN 9785985180497
- ↑ "Archived Images". Arquivado do original em 28 de dezembro de 2014.
- ↑ "Where the Romanovs were murdered: archived images". Russia Beyond the Headlines. 17 de abril de 2014. Consultado em 29 de janeiro de 2020.
- ↑ a b «Where the Romanovs were murdered: archived images». Russia Beyond the Headlines. 17 de abril de 2014. Consultado em 29 de janeiro de 2020
- ↑ Kurth, Peter; Christopher, Peter; Radzinskiĭ, Ėdvard (1998). Tsar : the lost world of Nicholas and Alexandra. [S.l.]: Allen & Unwin. pp. 186–187. ISBN 1-86448-911-1
- ↑ Plotnikov, Ivan (2003). О команде убийц царской семьи и ее национальном составе Arquivado em 2016-03-04 no Wayback Machine Журнальный зал, No. 9 (em russo)
- ↑ Kurth, Peter (1998). Tsar. [S.l.]: Allen & Unwin. p. 197. ISBN 1-86448-911-1
- ↑ «Archived Images». Cópia arquivada em 28 de dezembro de 2014
- ↑ Logan, D. (2013). Ekaterinburg : a play. Brisbane: Brisbane Dramatic Arts Company. ISBN 978-0987329691
- ↑ Taylor, Elise (10 de novembro de 2022). «What Really Happened Between the British Royal Family and the Romanovs?». Vogue. Consultado em 13 de novembro de 2022. Cópia arquivada em 11 de novembro de 2022
Ligações externas
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