Anaçai
Anaçai (em árabe: النسائي; romaniz.: al-Nasāʾī; Nasa, 830 — Ramla, 28 de agosto de 915, ou Meca, fevereiro de 916)), cujo nome completo era Abu Abederramão Amade ibne Xuaibe Anaçai (em árabe: أبو عبد الرحمن أحمد بن شعيب النسائي; romaniz.: Abū ʿAbd al-Raḥmān Aḥmad ibn Shuʿayb al-Nasāʾī), foi um tradicionalista, crítico de transmissores de hádices e especialista em qira'at. É reconhecido como um dos seis grandes compiladores de hádices do islamismo sunita e autor do Al-Sunan (Al-Mujtabā), uma das obras que compõem as Kutub al-Sitta. Após iniciar seus estudos no Coração, percorreu os principais centros intelectuais do mundo islâmico, incluindo Balque, Cufa, Baguedade, Baçorá, Damasco, Egito, Hejaz e Jazira (Alta Mesopotâmia), recebendo ensinamentos de cerca de 450 estudiosos. Estabeleceu-se posteriormente no Egito, onde alcançou grande prestígio como mestre de hádices, formando uma numerosa geração de discípulos e tornando-se amplamente reconhecido pelo rigor de seus critérios na avaliação da confiabilidade dos transmissores. Além do Al-Sunan e de sua versão ampliada, Al-Sunan al-Kubrā, produziu numerosas obras dedicadas à crítica dos transmissores, à exegese do Alcorão, às virtudes dos companheiros de Maomé, às invocações religiosas e a outros temas relacionados às ciências do hádice. Sua autoridade como crítico biográfico foi considerada comparável à de Albucari, sendo frequentemente apontado entre os maiores especialistas da disciplina.
Vida
Anaçai nasceu em 830 na cidade de Nasa, no Coração. As tradições que situam seu nascimento em 829 ou 840, bem como as que o localizam em outra cidade homônima situada nas regiões do Irã, de Quermã ou de Hamadã, são consideradas incorretas. Quanto ao nisba derivado de sua cidade natal, alguns autores defendem a forma Naçaui, enquanto outros preferem Niçai, sustentando que a cidade passou a ser conhecida como Nisa porque, quando os exércitos islâmicos a conquistaram, encontraram nela apenas mulheres (nisāʾ), já que os homens haviam abandonado o local. Algumas fontes registram erroneamente o nome de seu pai como Ali ibne Xuaibe. Depois de memorizar o Alcorão ainda na infância, iniciou os estudos de hádices aos quinze anos. Em 844 ou 845 dirigiu-se à aldeia de Baglã, próxima de Balque, para estudar com Cutaiba ibne Saíde, o mestre de quem mais se beneficiou, permanecendo com ele durante catorze meses. Estudou ainda com numerosos tradicionalistas, entre eles Ibne Rauai, Abu Alhaçane ibne Abi Xaiba, Amade ibne Hambal, Amade ibne Mani, Ali ibne Hujer, Hixame ibne Amar, Duaime, Ibraim ibne Saíde Aljauari, Anre ibne Ali Alfalas, Maomé ibne Baxar Albundar, Ibne Almuçana, Iacube ibne Ibraim Adauraqui, Abu Zura Arrazi, Abu Hatime Arrazi, Albazar, Abu Isaque Aljusjani e Abu Iala Almaucili.[1]
Em busca de conhecimento, viajou pelo Coração, Hejaz, Egito, Iraque, Jazira (Alta Mesopotâmia) e pelos principais centros intelectuais da Síria, fixando-se posteriormente no Egito. Continuou estudando mesmo na maturidade, aprendendo tanto com mestres da geração de Albucari e Muslim ibne Alhajaje quanto com estudiosos de sua própria geração, como Abu Daúde Assijistani e Abedalá ibne Amade ibne Hambal, desde que satisfizessem seus rigorosos critérios de transmissão. Também estudou ciências do Alcorão e quirate com mestres como Açuci, chegando a receber ensinamentos de cerca de 450 estudiosos. Sua extrema exigência na crítica dos transmissores fazia com que rejeitasse completamente tradições provenientes de narradores que considerava fracos, como Ibne Laia, ainda que essas cadeias de transmissão fossem particularmente curtas e prestigiosas. A reputação de Anaçai como tradicionalista atraiu numerosos estudantes ao Egito. Entre os que transmitiram hádices por sua autoridade figuram seu filho Abedalcarim, Cácime ibne Tabite, Abu Bisre Adulabi, Ataaui, Abu Auana Alisfaraini, Alucaili, o exegeta Anaás, Abu Ali Anixapuri, Abuçaíde ibne Iunus, Ibne Hibane, Hâmeza Alquinani, Atabarani, Ibne Açuni e Ibne Adi.[1]
Segundo o testemunho de seu discípulo Abuçaíde ibne Iunus, Anaçai deixou o Egito em maio ou junho de 915 e morreu em 28 de agosto do mesmo ano, em Ramla, na Palestina, sendo sepultado em Jerusalém. Essa versão é considerada a mais confiável por Adaabi, em razão da reconhecida precisão de Ibne Iunus, e foi igualmente adotada por biógrafos como Assafadi e Tajadim Açubequi. Outra tradição, transmitida por Abu Abedalá ibne Manda, relata que, nos últimos anos de vida, Anaçai viajou do Egito para Damasco. Numa mesquita da cidade, interrogado sobre Moáuia I, respondeu: "Basta que Moáuia salve a própria cabeça". A resposta provocou a ira dos partidários do califa, que o espancaram e o expulsaram da mesquita. Gravemente ferido, teria sido levado para Meca, onde morreu em fevereiro de 916 em consequência das agressões. Adaracuteni acrescenta que, a pedido do próprio Anaçai, ele foi conduzido a Meca e sepultado entre Safa e Maruá, considerando-o mártir em razão do episódio de Damasco. As fontes também lhe atribuem o exercício da magistratura em Hómece e no Egito, embora ressaltem sua preferência por manter distância dos governantes. Era conhecido por vestir-se com elegância, dedicar-se intensamente ao culto, realizar frequentes peregrinações a Meca, participar regularmente da jiade e observar jejum em dias alternados. O prestígio de Anaçai entre os especialistas em hádices foi extraordinário. Seu discípulo, o jurista xafeíta Ibne Alhadade Alquinani, afirmava que sua erudição em hádices e direito islâmico, aliada à sua piedade, tornava desnecessário estudar com qualquer outro mestre. Abu Ali Anixapuri referia-se a ele como "a autoridade em hádices Abu Abederramão Anaçai" e o colocava entre os quatro maiores imames de sua época. Quando perguntado sobre quem preferia entre Anaçai e Ibne Cuzaima, Adaracuteni respondeu que Anaçai superava todos os estudiosos de hádices de seu tempo e qualificou seu Sunan como uma obra autêntica.[2]
Anaçai era igualmente reconhecido como um dos mais rigorosos críticos de transmissores de hádices de sua época. Saíde ibne Ali Azanjani afirmou que seus critérios para avaliar a confiabilidade dos narradores eram ainda mais exigentes do que os de Albucari e Muslim ibne Alhajaje, observação considerada correta por Adaabi, que assinalou que Anaçai classificava como "fracos" alguns transmissores aceitos por ambos. Abu Abedalá ibne Manda incluiu Anaçai, ao lado de Albucari, Muslim e Abu Daúde Assijistani, entre os quatro grandes compiladores capazes de distinguir rigorosamente as tradições autênticas das defeituosas. Adaabi também o situou no mesmo nível de Albucari e Abu Zura Arrazi no campo da crítica dos transmissores, considerando-o superior a Muslim, Abu Daúde, Atirmidi e Ibne Maja, além de lhe atribuir uma memória mais poderosa do que a de Muslim. Essas avaliações foram posteriormente endossadas por Taquidim Açubequi. Segundo Aláquime Anixapuri, Anaçai também se distinguiu pela profundidade de suas análises sobre a compreensão dos hádices (fiqh al-hadith). Seu rigor metodológico manifesta-se igualmente na terminologia que empregava ao transmitir tradições. Em razão de um desentendimento com o tradicionalista e cádi Alharite ibne Misquine, passou a assistir às aulas do mestre ocultando-se em locais onde não pudesse ser visto. Por esse motivo, recusava-se a utilizar para essas tradições as fórmulas convencionais haddathanā ("ele nos transmitiu") e akhbaranā ("ele nos informou"), reservadas aos ensinamentos recebidos diretamente, empregando em seu lugar a expressão: "Alharite ibne Misquine disse durante uma leitura realizada em sua presença, enquanto eu ouvia".[2]
A atitude crítica de Anaçai em relação a Moáuia I e Anre ibne Alas, ambos adversários de Ali ibne Abi Talibe na disputa pelo califado, levou alguns autores a acusá-lo de simpatizar com o xiismo.[3] Entretanto, sua posição não correspondia às doutrinas xiitas, pois jamais considerou Ali superior a Abu Becre e Omar ibne Alcatabe. Ibne Taimia observou que classificá-lo como xiita, assim como ocorreu com Ibne Abede Albar, era incorreto, uma vez que os tradicionalistas jamais atribuíram a Ali primazia sobre os dois primeiros califas. Além disso, sua obra Faḍāʾil al-Ṣaḥāba inclui tradições elogiosas a Anre ibne Alas, evidenciando uma postura equilibrada em relação aos companheiros de Maomé. Sua adesão à doutrina sunita também é considerada inequívoca. O conteúdo do Sunan e de suas demais obras revela sua conformidade com a teologia da Ahl al-Sunna, posição reforçada por sua concordância com a opinião de Abedalá ibne Almubaraque de que era descrente quem afirmasse que as palavras divinas registradas no versículo "Em verdade, Eu sou Deus; não há divindade além de Mim. Adora-Me" (sura Ta-Ha, 20:14) eram criadas. Embora a composição de Khaṣāʾiṣ Amīr al-Muʾminīn ʿAlī ibn Abī Ṭālib, dedicada às virtudes de Ali, tenha alimentado novas controvérsias, a redação posterior de Faḍāʾil al-Ṣaḥāba, abrangendo os méritos de diversos companheiros, é vista como demonstração de que Anaçai não favorecia qualquer facção.[4]
Obras
A produção intelectual de Anaçai é dominada por obras de hádices, muitas das quais correspondem a seções extraídas de seu Al-Sunan al-Kubrā e posteriormente publicadas de forma independente. Sua obra mais conhecida é Al-Sunan, também denominada Al-Mujtabā, coleção composta por 5 758 hádices e tradicionalmente considerada a que contém o menor número de tradições fracas entre todas as coleções do gênero sunan. A versão ampliada, intitulada Al-Sunan al-Kubrā, reúne 11 770 hádices e constitui a fonte da qual foi extraído o Al-Mujtabā. Entre suas obras mais importantes figura ainda ʿAmal al-Yawm wa al-Layla, redigida a pedido do comandante abássida Badre Alhamami, célebre pela reputação de ter suas súplicas atendidas. Considerado o mais antigo livro conservado dedicado às invocações e recordações religiosas diárias atribuídas a Maomé, reúne 1 141 ou 1 149 tradições e exerceu ampla influência sobre esse gênero literário. Também compôs Al-Ḍuʿafāʾ wa al-Matrūkīn, catálogo de cerca de setecentos transmissores considerados fracos ou inaceitáveis, que se tornou uma referência para a crítica biográfica dos narradores de hádices.[4]
Outras obras preservadas incluem Kitāb al-Tafsīr, compilação das tradições exegéticas constantes do Al-Sunan al-Kubrā; Faḍāʾil al-Qurʾān, dedicado às virtudes do Alcorão; Faḍāʾil al-Ṣaḥāba, sobre os méritos dos companheiros de Maomé; e Khaṣāʾiṣ Amīr al-Muʾminīn ʿAlī ibn Abī Ṭālib, coletânea de tradições relativas às virtudes de Ali ibne Abu Talibe e de sua família. Escreveu ainda tratados especializados como Kitāb al-Jumʿa, Al-Imāma wa al-Jamāʿa, ʿIshrat al-Nisāʾ, Kitāb al-Ṭibb li al-Nisāʾ, Kitāb al-Nuʿūt, Al-Jarḥ wa al-Taʿdīl, além de diversos opúsculos sobre narradores, juristas, mestres e métodos de transmissão. As fontes também lhe atribuem numerosas obras hoje perdidas, entre elas um Muʿjam, estudos de crítica biográfica como Al-Tamyīz, coleções de hádices organizadas segundo seus principais transmissores, um tratado sobre os ritos da peregrinação e um repertório dos mestres de Azuri. Parte de sua produção foi preservada apenas por meio de citações de autores posteriores, enquanto outras seções sobreviveram incorporadas ao Al-Sunan al-Kubrā ou em manuscritos fragmentários.[4]
Referências
- ↑ a b Kandemir 2006, p. 563.
- ↑ a b Kandemir 2006, p. 564.
- ↑ Kandemir 2006, pp. 564–565.
- ↑ a b c Kandemir 2006, p. 565.
Bibliografia
- Kandemir, M. Yaşar (2006). «Nesâî». In: Görgün, Tahir Uluç. Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 32. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 563–565. Consultado em 5 de agosto de 2026
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