Alarife

O alarife foi um termo usado no mundo ibérico e na América espanhola para designar, consoante o lugar e a época, um mestre ligado à construção — por vezes referido também como arquitecto, mestre de obras ou mestre de alvenaria — e, noutros casos, o titular de uma nomeação pública para reconhecer, avaliar, dirigir ou fiscalizar trabalhos construtivos. Quando nomeado por um cabildo como alarife da cidade ou alarife-mor, as atribuições documentadas podiam incluir matérias de traçado urbano, medição de solares, alinhamento de edifícios, condução de águas, avaliação de imóveis e intervenção em obras públicas; a combinação concreta destas tarefas variou entre cidades e períodos.[1][2]
O alcance do termo não foi uniforme. No estudo de Martha Fernández sobre a Nova Espanha, «alarife» aparece ora como designação profissional próxima de arquitecto ou mestre de alvenaria, ora como título de uma nomeação conferida por uma autoridade a um mestre encarregado de trabalhos oficiais. Por essa razão, o vocábulo não corresponde de forma exacta a uma profissão contemporânea única.[1]
Os titulares do ofício não constituíram uma categoria profissional única, contando entre os profissionais da construção pedreiros, carpinteiros e canteiros, documentando-se casos expressos de mestres de alvenaria e de carpinteiros investidos no cargo, ao lado de profissionais designados como arquitectos ou mestres examinados.[3][4]
Terminologia
A palavra deriva do árabe hispânico al‘aríf, proveniente do árabe clássico ‘arīf, «perito» ou «conhecedor». O Diccionario de la lengua española regista como sentidos principais «arquitecto ou mestre de obras» e «pedreiro». Em português, o vocábulo encontra-se igualmente dicionarizado, com a acepção antiga de arquitecto, mestre de obras ou construtor.[5][6]
Na historiografia, Martha Fernández, retomando uma distinção de Rafael Cómez, separa dois sentidos parcialmente sobrepostos: o que designava genericamente um mestre conhecedor da arte de construir, capaz de projectar, dirigir ou executar obras; e outro que correspondia à chamada «instituição do alarife», isto é, ao mestre publicamente escolhido para reconhecer, avaliar ou dirigir trabalhos em representação de uma autoridade.[1] Esta distinção nem sempre aparece claramente na documentação. Na Nova Espanha, os títulos de maestro de albañilería, maestro de arquitectura, maestro alarife e maestro mayor foram utilizados com significados variáveis durante os séculos XVI a XVIII. Um mesmo profissional podia ser chamado alarife num documento e arquitecto noutro, sem alteração demonstrável das suas funções.[7]
Também se documentam as formas castelhanas históricas alarifazgo, alarifadgo e alarifalgo, com o sentido de cargo ou ofício de alarife. A documentação lexicográfica regista alarifadgo desde o século XV, relacionando a palavra tanto com o exercício do ofício como com a judicatura desempenhada pelos alarifes.[8]
O título de alarife-mor também não significava necessariamente que o titular possuísse uma carta de exame de grau superior. Na Nova Espanha, «mor» exprimia sobretudo a autoridade exercida como representante do município, aproximadamente no sentido de arquitecto oficial da cidade.[3]
Origem ibérica
O ofício possuía antecedentes nas corporações e instituições municipais da Península Ibérica. As ordenanças medievais de Sevilha descreviam os alarifes como homens conhecedores da geometria, dos engenhos e das técnicas construtivas, escolhidos para julgar conflitos relativos às obras e actuar sob autoridade pública. Esses especialistas deviam inspeccionar construções, intervir em litígios entre proprietários e construtores, acompanhar a conservação de muralhas e edifícios públicos e vigiar o cumprimento das ordenanças urbanas. O saber técnico era associado a requisitos de lealdade, boa reputação, imparcialidade e capacidade para produzir concórdia entre as partes.[9]
Na análise de Fernández, a tradição sevilhana distinguia os conhecimentos profissionais da nomeação pública. Um mestre podia possuir competências de arquitectura ou alvenaria sem deter um cargo municipal; a expressão «instituição do alarife» refere-se aos mestres escolhidos pela autoridade para trabalhos oficiais.[1]
A presença do ofício nas Índias encontra-se documentada desde o século XVI. Fernández identifica uma nomeação de alarife da Cidade do México em 1531, enquanto a documentação editada por Francisco de Solano conserva uma tabela de emolumentos para o alarife de Lima em 1557, testemunhando a existência do cargo em várias cidades americanas concretas, sem que autorizem a atribuição de uma organização uniforme em todos os cabildos.[3][10]
Tratados e tradição escrita
As competências e os conhecimentos atribuídos aos alarifes foram transmitidos por ordenanças, pautas profissionais e tratados técnicos. Uma das principais fontes peninsulares é o Libro del Peso de los alarifes y Balanza de los menestrales, texto de datação medieval discutida conhecido através da versão incorporada nas ordenanças de Sevilha impressas em 1527. A obra reunia normas relativas à construção e reparação de edifícios, à resolução de conflitos entre proprietários e mestres e às qualidades exigidas aos alarifes, incluindo conhecimentos de geometria.[11]
Em 1633, Diego López de Arenas, carpinteiro que se identificou na folha de rosto como mestre do ofício e alcalde alarife de Sevilha, publicou o Breve compendio de la carpintería de lo blanco y tratado de alarifes. O tratado versava sobre carpintaria, geometria, regras de medição e utilização do compasso. A edição corrigida de 1727 foi acompanhada por um suplemento que incluía uma prática de visitas e avaliações de obras, matéria directamente relacionada com a actividade pericial dos alarifes.[12][13]
Enquadramento urbano nas Índias
As Ordenanças de Descobrimento, Povoamento e Pacificação de 1573 atribuíram aos fiéis executores, alarifes e pessoas designadas pelo governador o cuidado de verificar o cumprimento das regras relativas às casas e ao ordenamento urbano. Esses oficiais deveriam igualmente promover a conclusão das edificações com a maior brevidade possível.[14]
As fontes associam o alarife à execução material da traça em contextos determinados. As Ordenanças de 1573 incluíram alarifes entre os oficiais encarregados de vigiar a disposição dos solares e edifícios; em Lima, ordenanças de 1581 exigiram a sua intervenção no alinhamento de paredes e na abertura de acequias; em Caracas, documentos do século XVII atribuem-lhes a medição de solares e quarteirões.[14][15][16]
A documentação conserva formas distintas de designação. Na Cidade do México, o cargo municipal era atribuído no início do ano e não era vitalício; em Caracas, o cabildo nomeou dois alarifes públicos em 1623; e, numa avaliação realizada em 1658, a cidade e a proprietária tiveram inicialmente o direito de indicar um perito cada uma, acabando ambas por escolher o mesmo mestre.[3][16][17]
Nomeação e juramento
As formalidades de nomeação variaram conforme a instituição e a diligência. Na Cidade do México, Fernández documenta um cargo municipal anual.[3] Em 1593, Caracas, o mestre de alvenaria Antonio Ruiz Ullán declarou ter sido nomeado alarife da cidade, pedindo ao cabildo que lhe recebesse o juramento e regulamentasse o exercício do ofício. Explicou que lhe caberia examinar casas, cercas, demolições e outros assuntos de alvenaria, acompanhado por um escrivão, e apresentar parecer às autoridades.[18] Em 1623, o cabildo de Santiago de León de Caracas nomeou conjuntamente Francisco Medina, carpinteiro, e Bartolomé de Añasco, mestre de alvenaria, como alarifes públicos. O pedido que antecedeu a nomeação atribuía-lhes a avaliação de obras e a medição dos solares, quarteirões e ruas concedidos pelo cabildo.[16] Em 1658, na mesma cidade, Francisco Romero aceitou uma nomeação para avaliar uma casa e jurou desempenhá-la bem e fielmente, "sem afeição nem paixão".[17]
Remuneração
As fontes documentam regimes de remuneração distintos. Em Lima, a tabela de 1557 estabeleceu pagamentos por cada medição, visita ou diligência; Francisco Mamani Fuentes observa que, nos casos de alarifes por ele estudados no Vice-Reino do Peru e na Nova Granada, a função pública não era remunerada pelo cabildo, embora conferisse preeminência entre os mestres; na Cidade do México, pelo contrário, Fernández encontrou salários anuais, além da possibilidade de cobrança por trabalhos executados.[10][4][3]
Uma tabela de emolumentos aprovada em Lima em 1557 fixou os pagamentos devidos ao alarife da cidade. A medição de um solar dava direito a dois pesos; a medição conjunta de dois ou três solares, a três pesos, não podendo cobrar mais quando fossem numerosos. A visita de uma acequia permitia cobrar meio peso de cada pessoa interessada, enquanto o traçado ou encaminhamento de uma nova condução valia um peso. A mesma tabela de emolumentos atribuía um peso por parte nos conflitos relativos a edifícios, janelas ou outras obras. Quando o alarife saía da cidade para tratar de acéquias, recebia três pesos por dia se actuasse por ordem do cabildo e quatro quando fosse chamado por um particular. Em contrapartida, devia acudir sem pagamento às diligências necessárias ao bom governo das águas da cidade.[10]
Na Cidade do México, a remuneração do alarife municipal variou ao longo do período colonial. Martha Fernández identificou um salário inicial de sessenta pesos anuais e valores geralmente situados entre duzentos e quinhentos pesos nos séculos XVII e XVIII, embora as actas nem sempre indiquem as quantias ou a continuidade do pagamento.[3]
Os direitos cobrados estavam sujeitos ao controlo das autoridades. A tabela de emolumentos limenha proibia o alarife de exigir quantias superiores às estabelecidas, impondo a restituição multiplicada por quatro em benefício da Câmara régia.[10]
Competências
Traça urbana e alinhamento

O alinhamento dos solares e construções aparece entre as atribuições documentadas em Lima e Caracas. As ordenanças confirmadas para Lima em 1581 proibiam levantar uma parede que avançasse sobre uma rua real sem que o alarife previamente determinasse o seu alinhamento. Uma construção executada em desconformidade podia ser demolida, além de sujeitar o responsável a uma pena pecuniária.[15]
Em Caracas, Antonio Ruiz Ullán propôs que ninguém pudesse cercar, edificar ou demolir sem prévia inspecção do alarife e do escrivão. O técnico deveria registar as medidas das construções antes da demolição, para que a reedificação não ocupasse mais terreno do que o pertencente ao proprietário, e corrigir paredes tortas ou desniveladas.[18] Em 1623, o cabildo caraquenho constatou que alguns titulares alargavam os seus solares para além das medidas constantes dos títulos, determinando que o procurador-geral inspeccionasse as parcelas e que o alarife, a expensas dos ocupantes, as medisse e mandasse demolir o que excedesse a área legitimamente concedida.[19]
Medição de solares e quarteirões
A medição de solares encontra-se repetidamente documentada em Lima e Caracas. Em 1623, o procurador-geral caraquenho pediu a nomeação de alarifes públicos para medir os solares e quarteirões concedidos pelo cabildo, de modo que fossem iguais e se conservasse a regularidade das ruas. No mesmo volume das actas, vários títulos de solares determinaram que a parcela fosse medida ou demarcada pelo alarife.[10][16][20] As actas de Caracas registam intervenções em situações diferentes: medição antes da expedição ou execução de títulos, verificação de parcelas cujo ocupante ampliara os limites e demolição do que excedesse a área concedida.[20][19]
No estudo sobre Santiago do Chile, a agrimensura e a administração de acéquias são apresentadas como funções centrais do alarife local, distinguindo, no final do período colonial, os alarifes do agrimensor-geral Juan José Goicolea.[21]
Acéquias e abastecimento de água
As atribuições hidráulicas estão documentadas de forma explícita em Lima e Santiago do Chile. Em Lima, a tabela de 1557 e as ordenanças de 1581 tratam de acéquias, caixas de água e do governo das águas, matérias relacionadas com o abastecimento de água, a irrigação e a salubridade urbana. As ordenanças de Lima determinavam que ninguém abrisse uma nova acéquia através da sua casa sem que o alarife assinalasse a entrada e a saída e verificasse a conformidade com o plano hidráulico da cidade. O técnico podia ainda ser enviado para fora do núcleo urbano a fim de examinar conflitos ou obras relativos às conduções de água.[15][10]
Em Santiago do Chile, a agrimensura e a administração das acéquias permaneceram entre as responsabilidades mais características do alarife. No século XVIII, estes conhecimentos foram aplicados também ao estudo e orçamento de canais, pontes, calçadas e outras infra-estruturas públicas.[21]
Conflitos entre construções vizinhas
A intervenção em conflitos construtivos está documentada em Lima e Caracas. A tabela limenha de 1557 fixava direitos para a averiguação de diferenças relativas a edifícios, janelas ou outras obras.[10] As ordenanças limenhas de 1581 proibiam abrir janelas sobre a casa alheia e impunham uma pena pecuniária ao infractor..[15]
Em 1593, em Caracas, Antonio Ruiz Ullán propôs que o alarife, acompanhado por um escrivão, examinasse questões de casas, cercas e demolições e apresentasse parecer às autoridades,[18] descrevendo o ofício como meio de evitar «diferenças e debates» entre os vizinhos. Depois de inspeccionar o local com o escrivão, o alarife apresentaria parecer e testemunho para que o cabildo ou a justiça confirmassem a providência adequada.[18]
Avaliação e perícia
A avaliação aparece entre as funções documentadas do alarife. A tabela de Lima de 1557 previa pagamento pela averiguação de diferenças construtivas. Em 1658, Catalina de Orozco pediu indemnização porque a sua casa e o respectivo solar tinham sido utilizados como cemitério durante uma epidemia em Caracas. A autoridade permitiu que o procurador-geral e a proprietária nomeassem avaliadores; ambos escolheram Francisco Romero, mestre de alvenaria e alarife da cidade. Depois de prestar juramento, Romero discriminou o valor do solar, dos alicerces, das paredes de taipa, das canas, telhas, tijolos, madeiras, portas, janelas e do trabalho dos mestres e peões.[10][17]
Para a Nova Espanha, Fernández documenta que os profissionais designados como alarifes, arquitectos ou mestres de alvenaria podiam executar actividades compreendidas entre o projecto e a avaliação das obras, notando que a terminologia e as diferenças de competência não permaneceram estáveis ao longo do período colonial.[7][3]
Obras públicas e orçamentos
Em Santiago do Chile, o estudo de Martínez-Barraza e Manquepillán Burgos atribui aos alarifes municipais do século XVIII a preparação de estudos técnicos e orçamentos para determinadas obras públicas. Nicolás Basauri preparou ou participou em estudos relativos a acéquias, empedramento de ruas, pontes, ao palácio presidencial e à capela de San Lázaro; Jorge Lanz reconheceu terrenos para o canal do Maipo, inspeccionou acéquias e elaborou um relatório técnico e orçamental sobre pontes. No Santiago tardo-colonial estudado pelos mesmos autores, os estudos técnicos e orçamentais antecediam a escolha entre construção directa, contratação por soma fixa e remate ou subasta.[21]
Relação com outros ofícios
Arquitecto e mestre de obras
A relação entre alarife e arquitecto variou historicamente. Para a Nova Espanha, Fernández encontrou períodos em que os dois termos foram usados para o mesmo profissional e outros em que «arquitecto» adquiriu maior prestígio. No plano institucional, «alarife da cidade» ou «alarife-mor» designava uma nomeação municipal, enquanto outras autoridades recorriam ao título de mestre-mor.[1][3] Na documentação estudada por Fernández, o mestre-mor ou maestro mayor era nomeado por autoridades civis ou eclesiásticas, como os vice-reis ou os arcebispos, podendo ficar ligado a uma catedral, um palácio ou outra fábrica régia.[3] As palavras alarife, arquitecto e mestre de alvenaria foram frequentemente aplicadas aos mesmos indivíduos durante os séculos XVII e XVIII.[7]
Pedreiros, canteiros e carpinteiros
O pedreiro ou mestre de alvenaria trabalhava com materiais como cal, barro, tijolo, adobe e telha, enquanto o canteiro se especializava no corte e assentamento da pedra. Na Nova Espanha, as designações atribuídas aos mestres variaram e nem sempre permitem separar claramente o executante, o projectista e o director da obra, com a documentação nem sempre permitindo deduzir diferenças de formação ou competência a partir do título isolado.[7]
A carpintaria tinha papel essencial na construção de telhados, armações, portas, pontes, engenhos e outras estruturas. No Vice-Reino do Peru, o cargo de alarife era geralmente ocupado por mestres de alvenaria, mas o carpinteiro Pedro de Céspedes exerceu-o em Lima entre 1664 e 1670. Também se documentam carpinteiros investidos como alarifes em Nova Granada.[4] Em 1623, o cabildo de Caracas nomeou conjuntamente Francisco Medina, carpinteiro, e Bartolomé de Añasco, mestre de alvenaria, como alarifes públicos. O pedido que antecedeu a nomeação atribuía aos titulares a avaliação de obras e a medição dos solares e quarteirões concedidos pelo cabildo, com o objectivo de conservar a regularidade das parcelas e das ruas.[16]
Perito e avaliador
O alarife podia actuar como perito ou avaliador numa diligência concreta. No caso caraquenho de 1658, o alarife Francisco Romero foi nomeado pelas partes, prestou juramento e apresentou uma avaliação discriminada; a decisão administrativa permaneceu a cargo da autoridade.[17]
Variações regionais
Nova Espanha
Na Nova Espanha, o primeiro alarife da Cidade do México identificado por Martha Fernández foi Juan de Entrambas Aguas, nomeado em 1531. Durante o século XVI, o cargo municipal concentrou-se na fiscalização das obras públicas e dos imóveis pertencentes à cidade; medições de hortas e solares, abertura de canos ou outras intervenções exigiam autorização específica do cabildo. O título de alarife-mor conferia autoridade como representante do município, não correspondendo a um exame de grau superior. Na Cidade do México, o cargo não era vitalício e era concedido no início do ano. Fernández relaciona o interesse pela nomeação com o salário, a possibilidade de cobrar trabalhos em obras oficiais e a aquisição de prestígio e novos contratos; em Puebla, Diego de la Sierra chegou a pedi-la sem salário.[3]
A terminologia mudou durante o século XVIII. A reforma das ordenanças proposta em 1746 procurou substituir a designação tradicional de «alvenaria» pela de «arquitectura», entendida como arte racional e de maior dignidade. Na Cidade do México, o termo alarife tornou-se menos frequente e perdeu parte do prestígio que tivera como equivalente de arquitecto, embora continuasse em uso noutras localidades, como Puebla.[22]
Peru
Para Lima conservam-se duas regulamentações quinhentistas: a tabela de emolumentos de 1557, relativa a medições, visitas de acequias e averiguações, e as ordenanças de 1581, sobre paredes voltadas para as ruas, conduções de água e janelas sobre casas vizinhas.[10][15] A actividade construtiva do Vice-Reino do Peru não se encontrava rigidamente dividida segundo categorias profissionais modernas. Pedreiros e carpinteiros podiam combinar a concepção, direcção e execução de obras, e alguns mestres de carpintaria alcançaram o reconhecimento público associado ao título de alarife. Mamani Fuentes afirma que, nos casos de alarifes examinados no seu estudo do Vice-Reino do Peru e da Nova Granada, a função pública não era paga pelo cabildo, mas conferia preeminência entre os mestres da construção.[4]
Venezuela
As actas do cabildo de Caracas documentam momentos concretos do exercício do ofício. Em 1593, Antonio Ruiz Ullán pediu que fossem formalizados o seu juramento, as atribuições e os direitos por visitas; em 1623, o procurador-geral declarou não haver alarifes públicos nomeados e pediu a designação de dois titulares para avaliar obras e medir solares, quarteirões e ruas.[18][16] No século XVII, várias concessões de solares determinaram que as parcelas fossem medidas pelo alarife; o cabildo ordenou também que fossem revistos os solares ampliados para além do título e demolido o excesso.[20][19] Em 1658, Francisco Romero aparece simultaneamente como mestre de alvenaria, alarife de Caracas e avaliador aceite pelas duas partes no processo de Catalina de Orozco. A sua perícia incluiu o terreno, os materiais e o trabalho incorporado na casa.[17]
Chile
Em Santiago do Chile, o alarife permaneceu uma figura central do governo da construção durante grande parte do século XVIII. O cabildo recorreu a estes técnicos para a agrimensura, a administração das águas, o levantamento das necessidades de infra-estrutura, a elaboração de orçamentos e a fiscalização de obras. Entre 1741 e 1804, as actas municipais analisadas por Martínez-Barraza e Manquepillán Burgos registam Nicolás Basauri, Jorge Lanz, Vicente Marcelino de la Peña, José María Cuevas, José Palma, Agustín Argüelles e Feliciano José Letelier como alarifes do cabildo de Santiago, assinalando que, salvo o registo de 1804, não encontraram outras nomeações entre 1792 e 1809.[21]
A partir das últimas décadas do século XVIII, engenheiros militares e arquitectos com formação académica assumiram uma participação crescente nas obras de maior dimensão. O alarife continuou a intervir em medições, avaliações e infra-estruturas menores, mas deixou de concentrar sozinho a competência técnica do município.[21]
Estatuto social e autoridade
O estatuto associado à nomeação não foi idêntico em todos os lugares. Na Cidade do México, Fernández documenta salário anual, cobrança por trabalhos oficiais e vantagens de prestígio; no caso de Lima e da Nova Granada analisado por Mamani Fuentes, a função pública não era remunerada pelo cabildo, embora conferisse preeminência entre os mestres.[3][4]
A documentação caraquenha regista mecanismos formais de aceitação e juramento. Antonio Ruiz Ullán pediu a recepção do juramento relativo ao cargo; em 1658, Francisco Romero jurou actuar sem afeição nem paixão antes de avaliar a casa de Catalina de Orozco.[18][17]
Nos casos examinados, a actuação técnica permanecia subordinada às autoridades e normas locais. Em Lima, uma tabela limitava os direitos cobrados e as ordenanças definiam determinadas intervenções; na Cidade do México, o cabildo atribuía e renovava o cargo; em Caracas, os pareceres e medições serviam de base a decisões do cabildo ou da justiça.[10][15][3][18]
Há ocorrências documentadas de carpinteiros nomeados alarifes em Lima, na Nova Granada, em Caracas e em Santiago do Chile, comprovando que a nomeação não ficou exclusivamente reservada a mestres de alvenaria.[4][16][21]
Transformação do ofício
Ocorreram diferentes transformações na Nova Espanha e em Santiago do Chile. No primeiro, o título de arquitecto ganhou importância durante o século XVIII; no segundo, engenheiros militares e arquitectos passaram a assumir estudos e projectos de obras de maior dimensão a partir das últimas décadas da centúria.[22][21] Na Nova Espanha, a valorização da arquitectura como arte contribuiu para substituir o título de alarife pelo de arquitecto entre os profissionais de maior prestígio. A palavra continuou a ser usada, mas podia adquirir um sentido mais genérico ou subalterno do que tivera nos séculos anteriores.[22]
As cronologias regionais não coincidiram. Na Cidade do México, Fernández encontrou uma redução do uso de «alarife» depois da reforma proposta em 1746, embora o termo continuasse em Puebla; em Santiago, as actas ainda registam um alarife em 1804, quando engenheiros e arquitectos já haviam assumido parte das grandes obras públicas. O Diccionario de la lengua española conserva ainda o sentido genérico de arquitecto, mestre de obras ou pedreiro.[22][21][5]
Distinção de conceitos próximos
O alarife podia exercer funções de arquitecto, mas os dois termos não foram sempre usados da mesma maneira. Na Nova Espanha, Fernández documenta tanto a sua equivalência prática em certos períodos como a existência de «alarife» enquanto título municipal específico.[1]
O mestre de obras dirigia a execução de uma obra ou conjunto de trabalhos. O termo podia sobrepor-se ao sentido profissional de alarife, mas «alarife da cidade» dependia de uma nomeação pública documentada.[6][3]
O pedreiro ou mestre de alvenaria trabalhava na construção de paredes, fundações, arcos, coberturas e outras estruturas; o canteiro especializava-se na pedra. Vários alarifes documentados eram mestres de alvenaria, embora a nomeação também recaísse em profissionais de outros ofícios.[7][4][16]
O agrimensor dedicava-se à medição e demarcação de terrenos. Em Santiago do Chile, o estudo utilizado atribui ao alarife funções de agrimensura, mas distingue os alarifes do agrimensor-geral Juan José Goicolea; em Caracas, a documentação citada limita-se sobretudo à medição de solares e quarteirões urbanos.[21][16]
O perito era nomeado para esclarecer tecnicamente uma questão. Um alarife podia, no entanto, desempenhar essa função, como aconteceu com Francisco Romero na avaliação de 1658.[17]
Referências
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Bibliografia
Fontes editadas
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Estudos
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- Martínez-Barraza, Juan José; Manquepillán Burgos, Nicolás Felipe (2024). «¡Manos a la obra! Gobierno de la construcción de obras públicas en Chile a fines del periodo colonial». Anuario de Estudios Americanos (em espanhol). 81 (2): e32. doi:10.3989/aeamer.2024.2.32. Cópia arquivada em 24 de julho de 2026
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